Arquidiocese de Manaus
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Boletins de guerra

Na quarta-feira fomos surpreendidos nos noticiários da manhã apresentados pelas rádios locais por uma chacina num dos nossos bairros. Pelo número de mortos e pelas circunstâncias tudo indica que se trata de um acerto de contas entre facções do crime organizado. Confesso que não senti nenhuma emoção especial ou indignação, nem mesmo receio de que alguém conhecido estivesse envolvido. A sensação é que estamos em mundos diferentes e um deles está em guerra, sendo este mais um boletim que anuncia os mortos e feridos da noite, bem mais numerosos do que os palestinos e israelenses na iminência de mais uma Intifada.

O mundo do tráfico com suas leis e organização tem vida própria, embora ocupe grande parte do tempo do poder judiciário e seja o responsável pela maioria dos encarceramentos. Mas a população em geral só cruza com o tráfico quando alguém morre atingido por uma bala perdida, ou quando alguém da família morre vítima de um assalto a mão armada. Assistimos impotentes a este espetáculo altamente perigoso e letal. Tenho a impressão que o crime avança no tecido social e quando menos esperarmos estaremos todos envolvidos nesta teia mortal. Então será tarde para reagir.

Cada um dos mortos na chacina e cada um dos assassinos tem uma história, tem parentes, teve ou tem seus amores e amantes. Imagino a carga de ódio que foi descarregada sobre a humanidade naquela noite. É imensurável o dano espiritual causado por um assassinato. São mães e pais, irmãos e irmãs, filhos, tios, sobrinhos, amigos de infância e de juventude que dificilmente se esquecerão da forma como seus entes queridos foram eliminados. Às vezes é preciso que se passem algumas gerações para que as mágoas e os ressentimentos sejam curados. Me parece claro que a maneira de lidar com este tipo de crime que tem sua origem no tráfico de drogas não está dando certo.

Não sou especialista em segurança pública, mas, como cidadão que se encontra muitas vezes com famílias destroçadas pela droga, penso que a sociedade deveria investir mais no combate à produção e ao consumo. Na minha juventude era charmoso fumar e quase todo mundo fumava, até eu. Quando a sociedade decidiu que o tabagismo não tem nenhum glamour, é extremamente prejudicial à saúde e investiu na propaganda e nos lobbies antifumo, fumar se tornou um ato antissocial que envergonha quem fuma e além disto é caro. Que tal se os governos investissem menos na propaganda de seus feitos duvidosos e mais na prevenção da dependência química? E se a ação policial se concentrasse mais na prevenção que na repressão? Me pergunto quantas vezes este assunto é tema de nossos encontros de catequese, ou das reuniões de casais e famílias? Sabemos todos que a recuperação de quem se envolveu com entorpecentes é muito difícil, é longa e cara.

Quando não houver consumo os mercadores da morte perderão a fonte de lucro, de cuja disputa nascem as facções com todo o horror que representam. Enquanto isto vamos tentando viver com dignidade sem permitir que o terror mate em nós a fé na humanidade, a esperança por dias melhores e a capacidade de amar.

 

ARTIGO DE D. SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 17.12.2017



Por: Arthur Amorim

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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