Arquidiocese de Manaus
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Os pobres

Fomos convocados pelo Papa Francisco a dedicar um dia aos pobres. O seu desejo é que tomemos consciência da realidade em que vivem tantos seres humanos que não tem o suficiente para viver com dignidade. São milhões de pessoas, em grande parte crianças que apenas sobrevivem e morrem prematuramente. Muitas vezes estas pessoas e grupos humanos se tornam invisíveis, outras vezes a sua exposição na mídia os transforma em simples figurantes de tragédias que se tornam espetáculo. O que os olhos não veem o coração esquece, se diz das pessoas apaixonadas. Quando não se conhece a dor da fome e o desespero de ver uma criança morrendo de doenças curáveis o coração não se compadece e reina a indiferença. Encontrar os pobres, ir ao seu encontro, visitá-los e recebê-los em nossas casas como semelhantes faz a diferença.

O morador de rua, as crianças, os adolescentes que dormem debaixo das pontes, são meus semelhantes. As famílias que vivem nas ocupações ou nas beiras dos igarapés fétidos que ainda teimam em cruzar a grande cidade são pessoas que partilham comigo a mesma espécie humana. São carne da minha carne e sangue do meu sangue. Tem história e sonhos. No mínimo precisam ser ouvidos. Há uma caridade que humilha e diminui o outro e só serve para inflar o ego do doador. O outro é meu semelhante e para o cristão é irmão, irmã e mãe. Só não é pai, porque o pai é único e é Deus.

Conheci em São Paulo um grupo de mulheres lideradas por uma uruguaia de nome Nenuca que se consagrou ao serviço do povo da rua. A intuição da fundadora era a seguinte: se Jesus veio para os pobres, não é preciso deixar de ser pobre para ser Igreja. Daí nasceu a Comunidade dos Sofredores da Rua que se reunia todos os domingos num salão no subsolo do Convento de São Francisco, no centro da cidade. Havia também a sopa às quartas-feiras, feita junto com o povo com restos da feira da Baixada do Glicério. Na semana da pátria acontecia a missão, três dias de convivência, oração, brincadeiras. Desta comunidade surgiu um grande movimento de catadores de papelão que hoje tem dimensão nacional. Fiz grandes amigos na comunidade. Conheci pessoas fantásticas que viviam na rua por opção ou, na maioria das vezes, porque as circunstâncias da vida as tinham conduzido até ali. Meu último encontro com Nenuca foi num quarto de hospital. Acometida de um câncer ósseo ela faleceu ainda jovem. Pediu que eu a abençoasse e depois me disse: nunca se esqueça dos pobres. Tenho tentado.

Às vezes é mais fácil conformar-se e dizer que é assim mesmo e que já que a situação não vai mudar mesmo é melhor dormir tranquilo. Ou de uma maneira mais perversa e preconceituosa atribuir as pessoas que vivem em extrema pobreza uma culpa moral pela própria situação. Responderemos ao apelo do Papa começando pelo respeito que devemos ter por toda pessoa humana. Depois é preciso encontrar estas pessoas, compadecer-se e fazer o que está ao nosso alcance para que elas possam viver com dignidade. O passo seguinte é o mais difícil porque é comprometedor estabelecer relações de fraternidade. Aí o reinado de Deus irrompe na história humana e os humilhados põe-se de pé.

 

ARTIGO DE D. SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 12.11.2017



Por: Arthur Amorim

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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