Arquidiocese de Manaus
Arquidiocese de Manaus

Procissões de outubro

Ontem fizemos o translado da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, da Igreja a ela dedicada no bairro de Adrianópolis até o Santuário de Fátima na Praça 14. Hoje, domingo, no mesmo dia que em Belém do Pará, uma multidão de peregrinos acompanha o Círio de Nazaré, os fiéis farão o trajeto de volta. Na quarta-feira, dia de trabalho, quatro de outubro, aconteceram duas grandes procissões em Manaus em honra de São Francisco de Assis, que é o mesmo que o das Chagas, sem falar nas inúmeras comunidades urbanas, rurais e ribeirinhas, a ele consagradas e que também fizeram seus atos de devoção. No dia primeiro eu já havia participado da procissão em honra da simpática doutora da igreja, Santa Terezinha do Menino Jesus, que iluminou o final do século dezenove com seu sorriso e perfumou o início do século vinte com suas rosas.

Sempre me pergunto sobre as razões que levam as pessoas a sair as ruas atrás de uma imagem, enfrentando calor e chuva, e nas cidades dividindo com os carros o espaço, pois estes eventos acontecem ao cair da tarde quando o trânsito está mais pesado. Há gente de todas as idades e classes sociais nestas caminhadas. Ao lado de pessoas simples caminham intelectuais, empresários e políticos, e sempre me impressiona a presença de jovens e de famílias que vem inteiras participar do ato sagrado.

A imprensa faz questão de mostrar o lado folclórico. Na procissão de São Francisco o cinegrafista filmou longamente um cachorrinho que estava no colo de sua dona, devota do santo protetor dos animais. É claro que muita gente está ali para pagar promessas, mostrando como a religião ainda é importante no dia a dia das pessoas. A vida do nosso povo ainda transita entre o sagrado e o profano e os milagres acontecem com muito mais frequência do que os racionalistas podem imaginar. Mas os pagadores de promessas não são a maioria. Uma grande parte das pessoas está ali por tradição. Todos necessitamos de raízes e nada melhor que atos religiosos para reforçar laços culturais e familiares. Muita gente que já não mora mais nos bairros volta no dia do santo. Depois da procissão vem o arraial, ponto de encontro e ocasião de lazer para pessoas que não podem ir a restaurantes e nem frequentam clubes.

E difícil, senão impossível, dar uma só razão de tão grande participação em procissões. Eu, pessoalmente gosto de caminhar no meio da multidão, testemunhando os pagadores de promessa, sorrindo com as crianças para quem aquilo tudo não passa de uma grande diversão, encontrando amigos e conhecidos, abençoando objetos de piedade, chaves de carros e de casas, fotografias de pessoas doentes, ou dependentes químicos. É certo que nos momentos de crise aumenta a participação, mas nos momentos de euforia também. Procissões podem não transformar a vida social, mas sem elas a pobreza seria mais avassaladora, e a vida seria muito mais pesada. Às vezes, por uma breve meia hora caminhamos juntos, cantamos louvores, damos vivas ao santo e sentimos a alegria da fraternidade e a esperança de um mundo sem dor governado por eles. Este dia virá.

 

ARTIGO DE DOM SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus

Publicado em 8.10.2017, no Jornal Amazonas em Tempo


Deixe um comentário

Seja o Primeiro a Comentar!

avatar
wpDiscuz