Arquidiocese de Manaus
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O Encontro

Nesta última semana de campanha, a visita de um dos candidatos a minha casa provocou um encontro simbólico entre os dois mundos que formam a sociedade brasileira e que ainda esperam a revolução para finalmente se encontrarem. Só então seremos uma grande nação. É hora de pensarmos grande e voltarmos a buscar uma identidade nacional a partir do povo sem cedermos a tentação de sermos eternamente os atores periféricos de um drama que se desenrola bem longe de nós e cujo roteiro é determinado pelas forças do mercado. É preciso reagir a dominação cultural, econômica e até religiosa que impedem o Brasil de ser ele mesmo. Diante da crise que estamos vivendo talvez o caminho de superação esteja na descoberta da força de resistência dos pobres e excluídos, dos valores que lhes dão força e do milagre que é a sua própria sobrevivência.

Naquela manhã de sol escaldante veio me procurar um homem franzino, com o corpo todo tatuado acompanhado de um menino de seis anos. Vinha do município de Tefé, do rio Curumitá que deságua no lago em que se transforma o rio que dá nome a cidade. Sua aparência era a de um menino de rua. Mas a história era um pouco mais complicada. O Messias, esse era o seu nome, estava com a sua família, mulher e seis filhos dormindo a mais de duas semanas num barco ancorado no porto de Manaus, pagando 15 reais por cada pernoite. O dinheiro que havia trazido já tinha acabado e estavam comendo aquilo que a caridade das pessoas lhes dava.

Tinham vindo para a capital para tratamento de saúde. De fato aquele jovem pai, de apenas vinte e seis anos, tinha uma hérnia visível mesmo aos olhos de leigos em questões médicas. Viera confiante em que iria encontrar um irmão que trabalhava no porto, mas até agora nada. A cirurgia, não entendi porque, está marcada para primeiro de setembro em Iranduba. Lá de onde vem, ele tem muita roça, isto é plantação de mandioca. O rio de onde ele vem é conhecido pela produção de farinha. Lá ele participa da comunidade e respeita os laços familiares. Casou-se muito cedo e se sente orgulhoso ao falar de seus filhos, todos homens como ele. Pela primeira vez na vida se sente perdido e veio à casa do bispo em busca de socorro.

Chegou junto com a comitiva que acompanhava o candidato. Não podia acreditar que estava diante de um personagem histórico que só conhecia pela televisão. Ficou tão atordoado que só depois viu que podia ter pedido uma ajuda, que certamente lhe teria sido negada pois caracterizaria compra de votos, exatamente o motivo da cassação do mandato do governador que estava exigindo uma nova eleição. Depois que a imprensa foi embora seguindo o candidato para mais um compromisso de campanha conversei longamente com aquele ribeirinho que tinha chegado ao limite. Gastei com ele o mesmo tempo de conversa que tive em particular com o candidato. Os dois tinham uma história. Mas como estão longe um do outro. Oxalá o governo consiga reconciliar o estado com a nação dando vez e voz ao povo do beiradão que resiste, mas está constantemente ameaçado.

 

ARTIGO DE D. SERGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL:  AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 27.08.2017



Por: Arthur Amorim

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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