Arquidiocese de Manaus
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Feliz Páscoa

Durante a última missa do domingo o padre que celebrava na catedral notou a presença de um grupo diferente no fundo da Igreja. Mulheres idosas e jovens com seus vestidos coloridos, crianças de todas as idades, algumas recém-nascidas, senhores, todos muito silenciosos e respeitosos esperavam o final da celebração. Abordados disseram a razão de sua presença. Além de rezar queriam auxilio para comer e vestir. Vinham da vizinha Venezuela, onde não tinham mais nenhuma perspectiva de vida e estavam passando fome. Pelos seus traços era claro que eram indígenas, muito embora não fosse fácil identificar nem sua etnia, nem de onde vinham exatamente. Onde estavam alojados? Em casarões do centro da cidade. Foi marcada então uma visita ao local para o dia seguinte. Participei da visita.

Amontoados em pequenos cubículos que devem pagar no final de cada dia, encontramos pessoas que simplesmente nos pediam comida e roupa. Deu logo para notar que são finos artesãos e que em situação normal não estariam pedindo. Me impressionou a dignidade das senhoras idosas, obrigadas a mendigar em terra estranha e os recém-nascidos, brasileiros por direito. Organizou-se uma resposta de emergência, mas desde o início ficou claro que a questão era muito mais ampla, que as causas sãos complexas e que as respostas teriam que envolver os organismos estatais. Aos poucos fomos descobrindo que o caso já estava sendo tratado pela polícia federal, e que o ministério público já tinha abortado uma tentativa de repatriação do grupo.

Eles fazem parte deste número imenso de seres humanos obrigados a migrar contra a sua vontade. Sem outra alternativa para simplesmente comer, ganham as estradas do mundo. É impressionante como logo se organizam redes de exploração da desgraça alheia. O Estado reage lentamente e quase sempre é omisso, a não ser quando é forçado a agir. Para a maioria de nós esta população é invisível e raramente os encontramos. Quando os vemos nos sinais pedindo esmola é difícil imaginar que são mais que pedintes, que tem uma história, que tem sonhos, que poderiam estar vivendo suas vidas de outra maneira. Cristãos que somos, não podemos ficar indiferentes e como o bom samaritano devemos acolher o migrante como o Cristo que nos veio visitar. Mas depois é preciso um cuidado efetivo, que envolva as instituições.

Estes encontros aconteceram no final da quaresma e na semana santa. A primeira lição destes dias santos é que Deus assumiu a condição humana como caminho de salvação. Se quisermos trilhar os seus caminhos temos que ser cada vez mais humanos e só nos tornamos humanos juntos. A solidariedade, a fraternidade, a reciprocidade que surgem destes encontros tem a força da ressurreição e a dinâmica da esperança. Quando estávamos deixando o local na nossa primeira visita uma jovem quis dar um presente para uma das visitantes, porque soubera que a mesma estava aniversariando. Ao ser perguntada se aceitaria, respondeu que sim cheia de emoção. Não sei onde está a pequena peça de artesanato, mas tenho certeza que ela representa um mundo novo que surge da força da ressurreição que teima em resistir a destruição da humanidade. Feliz Páscoa.

MATÉRIA DE D. SÉRGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL: AMAZONAS EM TEMPO
Data de Publicação: 16.04.2017



Por: Ana Paula Gioia Lourenço

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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