Arquidiocese de Manaus
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Candeias

No dia dois de fevereiro a Igreja encerra o ciclo das festas natalinas com a solenidade da Apresentação do Senhor. Como mandava a Lei, Maria e José depois de passados quarenta dias do nascimento de Jesus o levaram ao Templo para cumprir os rituais previstos na tradição judaica. Lucas coloca em cena Simeão e Ana que reconhecem naquele menino o Messias. No cântico do primeiro ele é reconhecido como o Sol nascente que nos veio visitar. Ele é a Luz do mundo. Sua mãe, que o carrega é a portadora da Luz, é a Senhora da Luz. A devoção popular foi pródiga em atribuir títulos à Maria a partir desta festa; Nossa Senhora das Candeias, da Candelária, da Luz, dos Navegantes. Nossa Senhora é o farol que nos conduz ao porto seguro da fé.

Para a piedade popular, esta é uma grande festa mariana. Além de muitas procissões fluviais, multidões saem às ruas para demonstrar a sua confiança na mãe de Deus. Em Candeias, no Recôncavo Baiano, existe um santuário dedicado à Virgem das Luzes. Interessante, porém, é que o culto está associado a uma fonte de água que o povo crê ser milagrosa, fato atestado pelas curas que ocorrem no local. Não é possível deixar de fazer um paralelo com Lourdes, na França, onde multidões se encontram também em torno da água que cura. Luz e água são símbolos da vida. Sem estes elementos a vida não acontece. Para o cristão Jesus é a Vida.

Durante nove dias uma multidão toma a praça principal para preparar-se para a festa. Com velas na mão rezam, cantam, fazem seus pedidos e agradecem as graças recebidas. Quem é de fora surpreende-se com tanta devoção. As multidões carnavalescas a gente entende, até porque os meios de comunicação transmitem a exaustão blocos, trios elétricos, músicas. Alguém pode se perguntar: e a evasão dos católicos que migram para as comunidades evangélicas? Como explicar tanta gente? E o número crescente dos sem religião, sem falar dos que assumem as religiões de matriz africana? Deixo a resposta para a sociologia e as ciências da religião. Fica claro que o Brasil é um país mariano e que a Igreja católica tem uma dimensão mariana que a constui e marca profundamente.

Maria é a dimensão feminina da História da Salvação. Ela é a ternura, o socorro, a portadora da luz. Neste dia a celebração começa com a benção das velas e uma pequena procissão. Nos rituais católicos se utilizam velas para ornamentação do altar e de todo o ambiente. Vela acesa e sinal de fé, de compromisso no seguimento de Jesus. No Evangelho Jesus diz que os seus discípulos são luz do mundo. Vendo a multidão em Candeias e me lembrando da Imaculada, da Mãe do Perpétuo Socorro, de Fátima, de Guadalupe, aumentou a minha certeza na grandeza de nosso país. Não podemos permitir que o espetáculo deprimente que nos é dado pela prisão de políticos e de empresários que pareciam intocáveis nos tire a esperança. A comemoração dos trezentos anos do encontro da imagem de nossa padroeira reafirme em nós o desejo de justiça que é condição de um verdadeiro desenvolvimento. Que a Luz, que é Jesus, nos ilumine. Que Maria, a portadora da luz caminhe conosco.

ARTIGO DE D. SÉRGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 05.02.2017


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