Arquidiocese de Manaus
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Tamanicoá

Tamanicoá é um povoado situado no rio Solimões pouco abaixo da Boca do Juruá. Lugar mais que centenário já está em mapas antigos da região. Podemos imaginar o sentimento dos que desciam o Juruá, o maior rio meândrico do mundo com suas praias e estirões que serpenteiam pela floresta que escondia o ouro branco da borracha e os homens e mulheres que num regime de semi escravidão viviam para sua extração, ao adentrar no Solimões já antevendo o final da jornada. Ou o contrário, quando subiam o Juruá levando o aviamento dos seringais, e os nordestinos trazidos para cá como soldados da borracha. É portanto um lugar carregado de história escondida que merece ser desvendada. E esta história não começou com a chegada do europeu. A localização geográfica deve ter sido palco de eventos e de vida dos povos originários desta terra amazônica.

A vila fica em terreno de várzea, e isto significa viver sempre em dificuldade de relação com o meio ambiente. No inverno, período das chuvas torrenciais, vem a cheia que quando fica nos limites, facilita a navegação e traz um certo conforto com temperaturas mais amenas. Mas quando a cheia se transforma em alagação é precioso subir assoalhos e as vezes até deixar tudo e refugiar-se em Fonte Boa ou até mesmo Tefé. Os que ficam, permanecem literalmente dentro da água que em alguns pontos chega a formar verdadeiras corredeiras. O verão traz algumas vantagens, mas a praia imensa que se forma a frente do lugarejo dificulta a locomoção. Tudo o que chega tem que ser carregado barranco acima, o que torna a vida mais complicada.

A comunidade tem umas quinhentas pessoas, que vivem da pesca e de uma pequena agricultura familiar e rudimentar. Há ainda os comerciantes com seus flutuantes, alguns professores e agentes de saúde. Não é difícil imaginar as razões que levam os jovens a migrar. Do ponto de vista religioso, mais ou menos metade das pessoas são católicas e a outra metade se divide em duas denominações evangélicas.

Estive em Tamanicoá para dedicar uma Igreja cujo padroeiro é São Sebastião. Prédio grande, construção sólida chama a atenção também pela beleza e qualidade do material usado. Tudo feito conforme as normas litúrgicas da Igreja católica. Conhecendo o local se sabe as dificuldades enfrentadas numa tal construção, desde a arrecadação de fundos até o transporte do material que chega nas balsas. Todos colaboraram. A inauguração foi uma festa memorável. A liturgia preparada com esmero pelo jovem padre que há seis anos organiza a área missionária que conta com cinquenta e três comunidades, envolveu a todos. Rituais milenares como a queima do incenso no altar foram vividos com muita seriedade e emoção. Depois foi servido o almoço para todos, inclusive para os não católicos que se sentissem a vontade para participar. A comida foi farta e o milagre da partilha se renovou inclusive nas sobras que garantiram o jantar de quase todos. Em tempos de rebeliões e massacres foi gratificante ver um outro Brasil, fraterno e alegre apesar das dificuldades. Será preciso muito tempo para digerir o significado daquela festa, mas estou convicto de que eles tem a chave do reino.

ARTIGO DE D. SÉRGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 22.0123.2017



Por: Arthur Amorim

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus



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