Arquidiocese de Manaus
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O eu que se ama

Acredito que você já tenha escutado muitas vezes este velho ditado que diz: “você não pode amar os outros a menos que ame a si mesmo”. Amar a si mesmo implica em assumir algumas atitudes que ao longo da minha vida tenho percebido serem indispensáveis.

A primeira atitude refere-se a aceitação de si mesmo. Ninguém consegue ser feliz ignorando a sua própria verdade, aquilo que se é e o que se sente. Cito aqui alguns exemplos: a cor da pele, o formato dos olhos, altura e tantos outros aspectos do próprio corpo e da personalidade. Essa aceitação pessoal passa também pela necessidade de honrar a própria história pessoal como algo único e engrandecedor, seja pelos acertos ou pelos erros cometidos ao longo da vida. Nesta atitude reside a capacidade de reconhecer-se como um ser de luz, capaz de atos de bondade, bem como uma pessoa portadora de limitações. A aceitação dessa realidade diversa existente em si, de luzes e sombras é o alicerce para a construção de um eu amadurecido e que se ama.

A segunda atitude é superar a autodepreciação, ou seja, lutar contra a crença de que você não é digno do amor ou do acolhimento. Na autodepreciação, a pessoa pode rejeitar suas boas qualidades como sendo insignificantes e permanecer focado em suas falhas. Para se amar é preciso apreciar-se na vida como uma benção acima de todas as limitações pessoais.

A terceira atitude é evitar a autoexaltação, ou acreditar que se é mais especial ou merecedor que os outros. Ao proteger sua autoimagem positiva de evidências que possam contradizê-la, o que surge é um narcisismo frágil. Na verdade, a autoexaltação é frequentemente uma defesa, uma espécie de couraça protetora usada para cobrir uma visão mais negativa de si mesmo. De certa maneira, ela pode ser autodepreciação disfarçada. Nesta atitude visa-se tomar consciência de que você não está acima nem abaixo de ninguém. Todas as pessoas são igualmente merecedoras de amor, aceitação e respeito, mesmo com seus vários defeitos.

Que tal agora fazer uma prática para uma maior aceitação ou apreciação de si mesmo? Será uma prática visando ajudá-lo a aceitar e apreciar por completo quem e como você é. Agora, neste exato momento, com suas falhas e fracassos, luzes e sombras. Essa prática é conhecida como a gentileza-amorosa. Segundo a pesquisadora americana Barbara Fredrickson, estudos mostram que o amor direcionado a si mesmo, como autocompaixão, é muito mais importante para a saúde e felicidade do que a tão popular autoestima elevada.

A meditação da gentileza-amorosa pode começar assim: encontre um lugar para sentar e não ser interrompido. Procure sentar-se de tal maneira que fique confortável e estabilizado. Baixe o olhar lentamente pra evitar distrações visuais. Se ficar agradável pra você, experimente fechar os seus olhos e em seguida respire profundamente por duas ou três vezes e volte sua atenção para o coração. Visualize como cada inspiração afeta fisicamente o coração. Considere como cada inspiração gentilmente massageia o coração, em um abraço carinhoso e acalentador. Em seguida respire normalmente e permita-se recordar suas próprias qualidades. Se ajudar, visualize brevemente um evento que exemplifica uma dessas qualidades. Procure aceitar rapidamente qualquer qualidade que vier a sua cabeça. Simplesmente permita-se lembrar o que há de bom em você, o que em você toca seu coração. Então, calmamente, ofereça os clássicos desejos da gentileza-amorosa para si, formulando frases destes sentimentos do jeito que melhor chega ao seu coração. Procure ver a si mesmo como sendo um amigo querido de si, alguém que deseja a si muita paz e reconhecimento por todas as superações das adversidades na vida.

Ao reconhecer o próprio valor e o valor de suas contribuições, você se abre, como uma flor, “de dentro, das próprias glórias”. Se porventura tiver alguma dificuldade para trazer a memória suas boas qualidades, tente se desviar deste obstáculo imaginando como aqueles por quem você se importa podem vê-lo. O amor a si próprio oxigena o coração, lembre-se disso!

 

ARTIGO DE PADRE CHARLES CUNHA DA SILVA
JORNAL: DIÁRIO DO AMAZONAS
Data de Publicação: 04.12.2016


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