Arquidiocese de Manaus
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Viver é confiar

Esta semana fui submetido a um intervento cirúrgico. Não sei como os médicos se expressam mas o verbo submeter no passivo e o substantivo derivado do verbo intervir dizem muito da experiência de ser operado. O paciente fica completamente nas mãos do cirurgião e sua equipe. Anestesiado perde o controle de suas faculdades e está entregue à competência profissional de homens e mulheres que aplicam medicamentos, medem os batimentos do coração, verificam a pressão, respiração, temperatura. Além disto, cortam, introduzem aparelhos, fazem suturas. Para fazer isto se prepararam durante anos e devem manter a calma e o equilíbrio. Por um espaço de tempo tem uma vida nas mãos.

A experiência que se faz é profundamente mística e plural. Percebemos que não temos o controle da nossa vida. São outros que decidem e agem por nós, e que o sentido de nossa existência transcende os limites do espaço e do tempo e que o fim é sempre uma possibilidade. Espontaneamente fazemos uma prece pedindo que a vontade de Deus seja feita e que Ele conduza as mãos e ilumine as mentes dos que estão ao nosso redor. O transcendente torna-se palpável e isto nos aproxima dos grandes místicos. Mas, já antes do intervento, sentimos a força da oração. Conhecidos, familiares, amigos, e até desconhecidos se juntam numa grande corrente de oração dando origem a uma fonte de energia espiritual que é real e que move montanhas. Se estabelece uma comunhão profunda que apesar de invisível é real e nos sustenta. Chamamos isto de comunhão dos santos.

Mas a generosidade não fica só na oração. Nestas ocasiões os amigos se colocam à disposição para estar juntos, para substituir o companheiro em compromissos inadiáveis, enfim para o que for preciso. Apesar de algumas exceções encontramos no hospital pessoas dedicadas, profissionais competentes e realizadas. É verdade que o sistema de saúde precisa ser melhorado, tirado da mão criminosa de corruptos inescrupulosos. Mas a precariedade das estruturas e a injustiça social que na área da saúde é perversa e assassina só faz ressaltar a competência e a responsabilidade da grande maioria dos operadores da saúde. Na experiência cristã a dor e o sofrimento são participação no sofrimento de Cristo, e este sofrimento é redentor. Paulo chega a afirmar que ele carrega no seu corpo o que falta aos sofrimentos de Jesus. Ele também afirma que é forte na fraqueza e que sua única glória e a cruz. A doença nos faz experimentar os nossos limites e revela a nossa verdade. Pode ser profundamente libertadora porque ao nos redimir do orgulho nos possibilita viver a fraternidade. O leito do hospital nos faz perder a pose e se tivermos juízo aceitar a nossa verdade.

Por isso o desvio de verbas na área da saúde pública é tão grave. Infelizmente estas coisas respingam sobre todos. Aqueles e aquelas que diuturnamente se esforçam para que a saúde aconteça podem sentir desânimo e perder a esperança. Mas se quisermos continuar a viver temos que confiar uns nos outros até prova em contrário e a força do perdão é sempre maior que o mal. A doença também nos ajuda a relativizar as coisas, pois afinal a vida pode ser muito curta.

ARTIGO DE D. SÉRGIO EDUARDO CASTRIANI – Arcebispo Metropolitano de Manaus
JORNAL: EM TEMPO
Data de Publicação: 30.10.2016


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